
Hoje olhei no espelho e me vi adulto: gordo, barba por fazer, rugas, decadente. Mas é assim: quanto mais se vive, mais perto da morte. Não sei se era reflexo de mim, ou se era reflexo dos meus preconceitos adquiridos pelo insaciável tempo. Preconceitos e conceitos que pesam a certeza de uma esperança, fazendo estar onde estamos. Aliás, é impossível dizer onde estamos. Ou onde estaremos daqui a 10 anos. Se é que estaremos em algum lugar. A Terra está ficando demodê, cor de areia, unicolorido. Tá ficando tom pastel, e desse jeito sem graça, é claro que não vamos querer morar aqui. Mas vamos mudar pra onde? Marte é muito longe, e Pandora, por mais que muitos insistam, não existe. Temos que pensar que não poderemos habitar aqui. Temos de pensar. P-e-n-s-ar. No meio da selva de pensamentos, o cântico de um sabiá fez voar minha atenção. E também meus pensamentos. Por um momento fui absolvido de meus pecados, me peguei numa imaculada lembrança da infância. Fui capaz de sentir cheiro do leite fervendo, os afagos da minha mãe, o futebol com meu pai. Lembrei que preguei e pequei por muitos outros espelhos, sofri com inúmeros outros reflexos. Ludibriado pela paixão da espera, nem percebi, que durante todo esse tempo, ele ainda continuava lá. A minha espera. E meu Senhor, pergunte a Dionísio e Iansã quanto nós pecadores somos abençoados por termos o extremo deleite dele, simplesmente, estar lá. Esperando nossa volta recheada de pecados.
O eterno renascimento da perspectiva persiste.
O eterno renascimento da perspectiva persiste.
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